Aquecimento ou desaquecimento global

*Hamilton Bonat


Vivíamos o ano de 1996. Mês de julho. Portanto, não era de estranhar o frio que fazia na Serra Gaúcha, onde estávamos, e na Serra Catarinense, para onde iríamos.

Partimos do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea (3º GAAAe), que eu comandava, numa tarde de sábado. O destino do nosso longo comboio, que contava, além do material de apoio logístico, com doze canhões e meia dúzia de centrais de tiro, era Urubici, distante 329 quilômetros.

Quem conhece o sinuoso trecho da BR 116 que atravessa a Serra Gaúcha, sabe bem do perigo que representam as suas inúmeras curvas. Para permitir o descanso dos motoristas, planejamos pernoitar no 1º Batalhão Ferroviário, em Lages. Lá, fomos recebidos com toda a fidalguia pelos engenheiros, à época comandados pelo meu colega de turma, Ramão Grala, infelizmente já falecido.

Domingo, bem cedo, seguimos destino. Antes mesmo de o sol raiar, já estávamos na estrada. Tínhamos pressa, pois, na segunda-feira, a Força Aérea iniciaria os ataques (obviamente simulados) contra as importantes instalações do Segundo Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (CINDACTA II), situadas no alto do Morro da Igreja. Antes disso, nossas seções de tiro teriam que ocupar posição, operação demorada, dificultada pelo acidentado terreno.

Na manhã da segunda-feira, como previsto, os caças da Força Aérea iniciaram os ataques, que continuariam até quinta-feira. Tudo sob um frio intenso, agravado por um forte e cortante vento. Mal conseguíamos dormir, pois à noite a situação se agravava em nossas desconfortáveis barracas. Retornamos à nossa sede na sexta-feira, com a gostosa sensação do dever cumprido.

Durante o período de nossa estada, um sargento da guarnição da Aeronáutica que lá servia chamou-me a atenção. Ele, além de usar todos os agasalhos (japona, luvas, cachecol) regulamentares, ainda se protegia com um cobertor. Fui bater um papo com ele e descobri que era de Recife e não conseguia se acostumar ao rigoroso frio daquela região.

A bem da verdade, creio que todos os militares que serviam e servem por lá enfrentam o mesmo desafio, pois não é nada fácil a vida naquele lugar ermo e gelado.

Ora, mas por que escrevo isso tudo? É que a intensa incursão polar, que avançou pela América do Sul nos últimos dias, provocou uma enxurrada de fotografias da neve nas redes sociais Duas delas me chamaram particularmente a atenção. A primeira, por razões sentimentais, foram as do 3º GAAAe. A segunda, do Morro da Igreja.

São imagens muito lindas. Mas a brancura da neve não significa somente beleza. O frio que ela traz, e que não se sente em fotografias, é de arrepiar. No Morro da Igreja, os termômetros chegaram a marcar menos 7,8º centígrados, com sensação térmica recorde de menos 20º.

Gostaria de saber o que os apocalíticos pregadores do aquecimento global teriam a declarar a respeito. Creio que ficarão calados, pois isso não lhes interessa, como igualmente não lhes interessou saber quem ateou fogo, ano passado, no Pantanal Mato-Grossense.

Agora, não aconselho ninguém a questionar as pessoas que habitam alguma região gelada sobre o que elas pensam sobre o aquecimento global. As educadas, responderiam com um sorriso de Gioconda. Porém, as malcriadas…

Fonte: Hamilton Bonat

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