Os países membros reafirmam que o Mercosul é uma aliança estratégica para enfrentar os desafios do atual contexto internacional. O problema é que existe uma grande distância entre a realidade e o discurso oficial.
Originalmente, previa-se um esforço para a criação de um mercado comum. As crescentes dificuldades institucionais cederam lugar aos aspectos políticos e sociais. A integração comercial foi colocada em segundo plano. Por motivos que nada têm a ver com o processo da integração, os números do intercâmbio comercial são bastante positivos.
Neste ano, o comércio entre o Brasil e a Argentina vai alcançar seu ponto mais alto. No entanto, do ponto de vista produtivo o Mercosul está sem perspectiva.
O governo brasileiro repete que os países membros deveriam pensar grande e dar um salto qualitativo pela aprovação de uma série de medidas, afim de avançar na conformação plena da União Aduaneira e de um mercado comum. Nos últimos cinco anos, contudo, os países do Mercosul não conseguiram concluir negociações de diversos itens. Já o setor produtivo está fazendo a sua parte de maneira vigorosa e efetiva.
A integração está acontecendo pela ação dos empresários que buscam aumentar o intercâmbio comercial e realizar novos investimentos e parcerias por meio de joint ventures e aquisições.
O setor privado espera que os governos enfrentem os desafios antigos e novos:
(a) o aperfeiçoamento da Tarifa Externa Comum (TEC), com a redução das listas de exceções, passando pela eliminação de barreiras;
(b) a retomada da prioridade para a integração física e abertura de corredores de exportação para a Ásia pelos portos do Pacífico, no Peru e no Chile.
No nosso entendimento, para tornar o Mercosul realmente efetivo e operacional do ponto de vista econômico e comercial, os quatro governos deveriam:
a) considerar que o bloco é parte essencial de cada um e por isso as respectivas burocracias deveriam levar em conta a existência de regras e limites dentro do bloco;
b) não ignorar que a decisão interna de política econômica tem implicações sobre os vizinhos;
c) buscar ganhos e benefícios, mas aceitar os inevitáveis custos da integração; d) abandonar a retórica e enfrentar a realidade dos problemas e assimetrias que não dizem respeito apenas ao tamanho dos territórios, o peso da economia e facilidades de financiamento.
Quanto ao último ponto é bom lembrar que as assimetrias hoje são fortemente relacionadas com as grandes diferenças no regime cambial e na taxa de juro que afetam a competitividade. Assim, para o futuro, as políticas econômicas dos países membros também precisam operar de forma concertada.
*Conselheiro do CDES, Rodrigo da Rocha Loures é presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep)
Publicado no Brasil Econômico