A VOLTA DA INDEXAÇÃO

Luiz Paulo Rover

O Congresso Nacional, através de seus deputados, aprovou em fevereiro deste ano, por maioria absoluta de votos, o projeto apoiado pela presidente Dilma que diz respeito à indexação de índices sobre o salário minímo, ou seja, até 2014 o mesmo aumentará o seu valor na proporção da inflação passada, acrescida do índice de crescimento do produto interno bruto (PIB) no ano.

Isso mostra ao Brasil que não é somente o povo que tem memória curta, mas a classe política também. Ela esqueceu rapidamente o quanto foi difícil acabar com a indexação, que até o Plano Real estava contida na cultura nacional. O industrial embutia no seu preço a inflação passada e uma margem de segurança prevendo uma inflação futura maior. O comerciante agia da mesma forma. O trabalhador tentava se proteger com reajustes anuais e depois com reajustes mensais. Porém, não conseguiu essa proteção no período pré-plano cruzado, pois a inflação era diária.

Demoramos anos para quebrar essa prática de indexarmos todas as transações econômicas-financeiras, tanto nos contratos mais complexos quanto nas praticas comerciais mais singelas. Com o tempo, essa prática foi sendo incorporada e persistiu até agora. Daqui para frente deve mudar.

Temos no Brasil cerca de 46 milhões de pessoas que recebem o salário minímo. Dentre elas, quase a metade é beneficiária do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Sendo assim, podemos aqui afirmar que não é somente a inflação que nos espera nos próximos anos, mas sim o aumento do rombo da já famigerada Previdência Social.

Sabemos que todos perdem com a inflação, principalmente o trabalhador, pois o salário chega em suas mãos corroído e ele nada pode fazer para se proteger.

A política econômica brasileira está entrando em uma condição de contrassenso, ou seja, há aumentos reais programados aos salários, gerando desequilíbrio nas contas públicas e privadas, criando expectativas de aumentos de custos e preços. Em contrapartida, adotam-se planos de aumentos de juros e redução de créditos, para diminuir o consumo e a inflação da demanda provocada pelo aumento do poder de compra dos salários.

O salário mínimo não é somente a remuneração recebida pelos 46 milhões de brasileiros acima citados, mas sim a referência sobre os salários dos demais trabalhadores desse imenso país. Na proporção em que o salário mínimo aumenta, os trabalhadores, através de seus sindicatos e centrais sindicais, forçam para que os demais salários acompanhem o mesmo índice e sistemática.

A remuneração pelo trabalho deve ser ajustada pelo mercado, sem a influência de lei ou dirigentes de um país, pois essa prática intervencionista e sistemática, como foi aprovada aqui no Brasil, além de indexar, provocando o aumento do consumo, também aumentará os custos de produção e serviço, aumentando, assim, a inflação e diminuindo a nossa capacidade de competição com os países do mundo que têm uma economia e política de salários, empregos e encargos trabalhistas mais modernos e competitivos que o nosso.

Hoje temos no Brasil um mercado interno aquecido pelo crescimento e aumento do poder de compra da classe trabalhadora. O mundo está de olho nesse mercado. Nossa moeda super valorizada, nossos custos de produção elevados, devido à carga tributaria e trabalhista, e a falta de infraestrutura fazem com que a cada dia nos tornemos menos competitivos no mercado mundial e nosso mercado interno a cada dia mais conquistado pelos outros países, como vemos em nossa balança comercial.

Medidas populistas de aumento de salários sistemáticos por lei, passando por cima do mercado, nos trarão inflação, diminuiçao de competitividade, saldos negativos na balança comercial, enfraquecimento de nossas empresas e desemprego para nosso país em um futuro proximo. Não podemos deixar isso acontecer. Presidente Dilma e Congresso, abram os olhos!

* Luiz Paulo Rover é vice-presidente da FIEP.