* Hamilton Bonat
PR, iniciais de Príncipe Regente, marcava a porta de muitas casas do Rio de Janeiro de 1808. Era a forma nada sutil de comunicar ao morador que sua residência não era mais sua e sim dos “valentes” que acabavam de chegar, os mesmos que semanas antes, em Lisboa, se apinhavam no cais do porto para conseguir uma vaguinha nos navios que tinham por destino a colônia. Escaparam, assim, da fúria de Napoleão, cujas tropas já estavam a caminho. Fugiram e deixaram seus súditos abandonados à própria sorte. Covardes em relação ao corso francês, mostravam-se, agora em solo brasileiro, corajosos contra os cariocas. Estes, com sua habitual perspicácia, traduziram aquelas iniciais para “Ponha-se na Rua”. Mesmo sem se conformar, tiveram que abandonar os seus lares.
O Brasil beneficiou-se por ter sido escolhido como local de homizio. Viramos sede do Reino Unido. Nossos portos foram abertos para a navegação internacional, traduza-se para a Inglaterra, a senhora dos mares. Mais tarde, sob o risco de perder a Coroa Portuguesa, D. João, acompanhado por aqueles que lhe beijavam a mão, viu-se obrigado a retornar. Voltou levando ouro e deixando aqui o seu filho, que se tornaria o nosso primeiro imperador. O preço que habilmente nos cobraram pela independência foi a enorme dívida que a família real tinha com os ingleses.
Como são coisas do passado, imaginou-se que jamais voltariam a acontecer. Mas não é que, mais de 200 anos depois, a história está se repetindo aqui em Curitiba? Onze imóveis nos arredores de um estádio de futebol tiveram seus muros pichados, não com um PR, mas com um símbolo digno dos piores grafiteiros, para informar aos seus moradores, alguns há décadas, que têm que sair. Segundo um deles, “Será tudo desapropriado, por bem ou por mal. A prefeitura está irredutível. A quantia a ser paga é menor do que vale o imóvel”.
Simultaneamente, a imprensa tem noticiado que, em reunião de 2010 do conselho deliberativo do clube que receberá dinheiro do BNDES para ampliar sua arena, um então vereador e hoje secretário de estado já afirmava que não será necessário pagar o empréstimo. O que ocorre em Curitiba provavelmente esteja acontecendo em outras paróquias. Logo, todos os paroquianos gostariam de ser consultados se concordam com esse tipo de calote, se o prioritário é usar dinheiro público para construir estádios particulares, ou se hospitais, escolas, estradas ou segurança pública não seriam mais necessários.
Lá por Brasília, o presidente da FIFA foi recebido cordialmente pela nossa mandatária. Ele é exigente: quer, inclusive, que mudemos algumas leis. O Congresso já lavou as mãos ao não se posicionar quanto ao consumo de cerveja nos estádios. Passou a bola para os estados. Quem teria a obrigação de defender nossa soberania, o governo federal e o congresso, curva-se à vontade da poderosa FIFA. Normalmente tão valentes para rabiscar muros de lares curitibanos, nossos dirigentes se submetem aos que comandam o futebol mundial.
Como última esperança, restaria o Judiciário. Mas sua lentidão faz crer que só decidiria depois de 2014. Aí, a “família real” já terá retornado, levando nosso dinheiro e deixando, mais uma vez, a conta para os brasileiros pagarem.
Fonte: http://www.bonat.com.br