1950 não se repetirá

* Hamilton Bonat
Último jogo do Brasil antes da Copa. Foto: ABr

Último jogo do Brasil antes da Copa. Foto: ABr

Se é verdadeiro o que circula pela internet, os membros da Famiglia Scolari recebem por mês o que outros mortais passarão a vida inteira sem ao menos chegar perto. E olha que na lista não consta o salário do chefe do clã. Resta aos outros mortais o consolo de que seus salários não saem do seu bolso. Além do mais, é forçoso concordar com o Romário. Deus deve ter colocado a mão sobre suas cabeças e dito: “Esses são os caras”. Dá até para compreender e justificar as ardentes paixões das Marias Chuteiras. Mesmo assim, tomara que sejam campeões e não se repita o Maracanazo, que levou o Brasil às lágrimas.

Corre o mundo a notícia de que a Copa será outra vez no Brasil, o que não chega a ser exatamente uma verdade. Heráclito, provavelmente inspirado em antigo provérbio chinês, ensinou que “Um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio, pois tanto o homem quanto o rio nunca são os mesmos”. O pensamento do filósofo grego (talvez dispensável para chegar a esta conclusão) deixa claro que o Brasil não sediará “novamente” a Copa do Mundo, pois, passados sessenta e quatro anos, ambos não são os mesmos.

A de 1950 foi a primeira pós-guerra. A insanidade de líderes europeus havia levado ao cancelamento da competição em 1942 e 1946. A FIFA chegava com nobres e sinceras intenções. O futebol, popularíssimo, serviria para reaproximar as nações, principalmente as europeias, que tentavam ressurgir das cinzas da sua brutal autodestruição. A disputa se daria no campo de jogo, menos violenta, sem mortos nem feridos. Bola em lugar das armas.

Agora, 2014, a Copa é um produto gerador de lucros exorbitantes. A atrativa ética do fair play, exigida dentro de campo, mais parece um véu que encoberta a realidade, não tão ética assim, de uma instituição que se tornou bilionária. Não por coincidência, aqui ela acabaria encontrando companheiros e espaço fértil para agir.

O Brasil de 1950 ainda era preponderantemente rural, mas iniciava a sua industrialização e a consequente urbanização. Nossa autoestima estava em alta: éramos miscigenados, ordeiros, desprovidos de preconceitos e estávamos construindo um grande país. Em nosso subconsciente coletivo, a Copa serviria para ensinarmos aos “gringos” como viver em harmonia. Nós éramos os civilizados que estavam acolhendo os bárbaros europeus. Razões de sobra para o Maracanazo nos ter feito chorar.

O Brasil de 2014, ao contrário, é um país dividido, violento e descrente, tal como a Europa pré-guerra. A história agora se repete, porém invertida. Enquanto os europeus se aproximaram e cresceram, nós estamos caminhando na direção oposta, àquela que conduz ao caos. Tudo é motivo para bloquear estradas e avenidas, prejudicando milhares de pessoas. Incendiar, depredar e saquear virou moda. São sinais de incivilidade, que quase atingem as raias de guerra civil.

Em 1950, a campanha “O petróleo é nosso” tinha no General Felicíssimo Cardoso um dos seus mais ferrenhos defensores. O interessante é que Felicíssimo, conhecido como “general do petróleo”, era tio de Fernando Henrique Cardoso, mais tarde o presidente da república que quase privatizaria a Petrobras. De “O petróleo é nosso”, surgiu e prosperou a estratégica Petrobras, que, apesar de oficialmente continuar estatal, na prática foi privatizada, pois quem a controla é um pequeno grupo para quem o proveito próprio está acima dos interesses maiores do país.

Neste 2014, se houver outro Maracanazo, poucos irão chorar. Tomara que não ocorra, pois forneceria mais combustível aos que se alimentam do ódio e da violência, dos quais já chegamos ao limite. Por isso, esperamos que a Famiglia Scolari faça jus ao seu milionário salário. Além do mais, a impune destruição da Petrobras já nos tem causado suficientes lágrimas.

*Hamilton Bonat é membro efetivo da Academia de Letras José de Alencar

Fonte: www.bonat.com.br/