Ministério da Noite

*Hamilton Bonat

Crônicas registram a história de um tempo. Representam um gênero literário vigoroso e atual. Por isso me atraem. Sabedora disso, minha filha costuma presentear-me com obras de cronistas famosos. Detrás dessa gentileza, existe um motivo subliminar que, por educação, ela não revela: o de induzir-me a aprender com celebrados autores, de modo que eu não perca os sete pacientes e valorosos leitores que ainda me restam.

Recentemente, fui brindado com “O Mais Estranho dos Países”, da lavra do mineiríssimo Paulo Mendes Campos, que amigos íntimos costumavam chamar de PMC. Entre eles, estavam Ari Barroso, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e outros contemporâneos famosos. PMC, além de cronista, foi também poeta e contista.

Vejam o que encontrei na sua obra, que recebi e saboreei num vapt-vupt, sobre um seu conterrâneo lá das Minas Gerais: “Ari Barroso não foi tão assíduo quanto Antônio Maria no Ministério da Noite, mas não chegou a ser um funcionário relapso. Não era de sentar praça em bar e boate por muito tempo; acabava sumindo, espavorido pelos chatos endêmicos.”

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Compunham o imaginário Ministério de PMC pessoas que reuniam-se à mesa de um bar, com um olho no copo e outro na vizinhança, e os ouvidos sempre atentos, em busca de algo ou alguém que pudesse virar mote para nova peça literária ou musical. A ele, o Ministério, devemos a Aquarela do Brasil, a Garota de Ipanema, o Samba do Avião e outras tantas centenas de preciosidades.

Ao mesmo tempo em que me deliciava com a leitura, acompanhava nossa presidente reeleita afirmando que, como o país vivia grave crise econômica, teríamos que apertar o cinto. A cada anúncio, a conta-gotas, dos novos ministros, pela janela entreaberta da minha sala, surgia uma réstia de esperança de que ela iria dar o exemplo. O primeiro passo seria reduzir a exagerada quantidade de ministérios, alguns sem importância alguma, a não ser a de arrumar emprego para políticos desocupados. Quem sabe, num segundo passo, não acenaria com a redução das dezenas de milhares de cargos comissionados, outro improdutivo sugadouro de recursos públicos.

Minhas esperanças nasciam e morriam a cada nova lista de nomeados. Quando a última foi anunciada, constatando que o cinto presidencial definitivamente não seria apertado, lembrei-me de PMC e decidi sugerir a criação do Ministério da Noite. Chegaríamos, enfim, ao cabalístico número de Ali Babá: quarenta ministros.

Afinal, há milhões de brasileiros, abandonados e desassistidos, que trocam o dia pela noite. Não se trata apenas dos que frequentam os bares da vida noturna. Há os profissionais da noite. Por dever de justiça, pois antiguidade é posto, destaco as prostitutas. Mas há muitas outras categorias de dedicados trabalhadores, como os plantonistas da área da saúde e da segurança, os radialistas, os taxistas, os motoristas de ônibus e, fechando o circuito, os garçons que servem aos que se reúnem à mesa de bar à caça, ou não, de inspiração. Peço desculpas aos profissionais de outras categorias, aqui omitidos por imperdoável falha da minha memória.

Se digo isto no começo deste texto, nem mesmo os meus sete leitores teriam me acompanhado até este último parágrafo. Mas, na verdade, já que a decisão foi mesmo a de continuar esbanjando dinheiro público, que se crie o Ministério da Noite! Quanto ao melhor nome para ser nosso quadragésimo ministro, deixo a escolha a cargo dos meus fiéis sete leitores.

*Hamilton Bonat é membro efetivo da Academia de Letras José de Alencar

Fonte: http://www.bonat.com.br/